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Reforma Tributária e Simples Nacional: o risco estratégico que começa em 2026 — e se define em 2027

Por Lucas Tesseroli

A reforma tributária já começou.

Em 2026, as empresas passam a conviver com os novos tributos sobre consumo, inclusive com testes de apuração e recolhimento do IVA dual (IBS e CBS), além da adaptação de sistemas, documentos fiscais e rotinas operacionais.

Mas é a partir de 2027 que o jogo muda de verdade.

É nesse momento que a não cumulatividade plena entra em funcionamento e começa a impactar diretamente margens, preços e decisões comerciais.

O problema é que muitas empresas ainda estão olhando para 2027 como um ponto de partida.

Na prática, ele é apenas o momento em que as consequências de decisões mal planejadas começam a aparecer.

A virada estrutural: do preço ao custo líquido

O novo modelo, instituído pela Emenda Constitucional nº 132/2023 e regulamentado pela Lei Complementar nº 214/2025, introduz um IVA dual baseado no princípio da não cumulatividade ampla.

Isso significa que o imposto pago ao longo da cadeia passa a ser recuperável por meio de créditos financeiros.

Na prática, o impacto é direto:

Empresas deixam de analisar apenas o preço de aquisição e passam a considerar o custo líquido após aproveitamento de créditos tributários.

Essa mudança é especialmente relevante nas relações B2B, onde a eficiência tributária passa a ser um fator determinante na escolha de fornecedores.

Simples Nacional: onde está o ponto de tensão

O Simples Nacional foi preservado pela reforma, mas não saiu ileso.

Empresas que permanecem no modelo tradicional continuam com uma sistemática simplificada, porém com uma limitação estrutural relevante: a transferência de créditos é restrita ao valor efetivamente recolhido no DAS.

Por outro lado, empresas no regime regular, ou no modelo híbrido, passam a operar com crédito amplo, alinhado à lógica do IVA.

Essa diferença cria uma distorção competitiva importante.

Segundo a nova sistemática, empresas que geram crédito integral podem reduzir significativamente o custo líquido de seus clientes.

Na prática, isso significa que dois fornecedores com o mesmo preço podem ser percebidos de forma completamente diferente pelo mercado.

E, em cadeias B2B, essa diferença tende a ser decisiva.

2026: o ano da preparação obrigatória

O ano de 2026 não é apenas uma fase de transição formal.

É o período em que as empresas precisam:

  • Testar seus sistemas de apuração e emissão fiscal;
  • Simular cenários de carga tributária sob o novo modelo;
  • Mapear impactos por tipo de operação e perfil de cliente;
  • Revisar contratos e políticas comerciais;
  • Entender sua posição na cadeia de valor.

Empresas que tratam 2026 como um “ano neutro” perdem a oportunidade de ajustar sua estrutura antes da virada efetiva.

2027: quando a competitividade será redefinida

A partir de 2027, com a não cumulatividade plena em operação, o crédito tributário deixa de ser um detalhe técnico e passa a ser elemento central na negociação.

Isso impacta diretamente:

  • Formação de preços;
  • Margens operacionais;
  • Escolha de fornecedores;
  • Estrutura das cadeias produtivas.

Empresas que não gerarem crédito suficiente podem ser pressionadas a reduzir preços para compensar, comprimindo margens e perdendo competitividade.

O verdadeiro risco: não é tributário, é estratégico

O maior erro é analisar a reforma apenas sob a ótica de aumento ou redução de carga.

O que está em jogo é o reposicionamento da empresa dentro da cadeia econômica.

O regime tributário passa a influenciar diretamente:

  • Poder de negociação;
  • Atratividade comercial;
  • Capacidade de competir em mercados mais estruturados.

E isso exige decisões que não são triviais, nem rápidas.

Conclusão: quem testa em 2026, compete em 2027

A reforma tributária não começa em 2027.

Ela começa na forma como sua empresa se prepara em 2026.

Quem usa esse período para simular, ajustar e estruturar sua operação chega em 2027 com clareza e vantagem competitiva.

Quem ignora esse movimento, tende a descobrir tarde demais que o problema nunca foi o imposto.

Foi a falta de estratégia.

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